Respiro pausadamente. Sinto uma vontade tímida e espalhafatosa perto do estômago. Pequenas pontadas, pequenas agulhadas que vão ferindo lentamente a carne. Desconforto. Formigamento. Um desassossego que não nomeio, não decodifico: sinto apenas. E ele cresce, e aumenta, e agora queima. Me faço em versos de carne viva: arranco a pele afim de exaurir-me da dor. E nada cessa. Me atiro para fora de mim-mesma: órgãos, vísceras, essência. E nada cessa. Me viro do avesso, me transponho para o outro lado, mas tudo o que ainda sou acaba por crepitar: incêndio sinuoso. E nada cessa. A sensação me sobe pela garganta e desemboca nas cordas vocais: é um grito extenso, longo, longínquo: o grito daqueles que se quebram como cacos-de-vidro. E ele dança dentro da minha boca, faz malabarismos, brinca como criança. Mas eu o engulo forçosamente, o empurro de volta ao profundo do corpo. Tento fazer sufocar o grito que me emudece. Mas ele não cessa. Ele dilata e ocupa todos os mínimos espaços dos dedos, e quebra as unhas, e rasga a pele, e se torna extensão de mim-mesma. Cria feridas, machuca, jorra sangue. O grito não cessa: cedo: solto, relaxo, viro mar. E grito:
eu poderia continuar lendo por horas.
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