quarta-feira, 1 de junho de 2011

carta pra você

Esquece esquece esquece daquilo que te fere, dos punhos que te empunham, das mãos geladas que te acariciam a face. Carece, mas carece bem dentro, daquele sentimento estúpido, daquela falta boa, daqueles dias em que o som do nosso riso era maior e mais alto que toda essa poluição sonora. Eu te careço. Eu não te esqueço. Te lembro ao olhar a neblina crua e branda que pousa por toda a cidade, fazendo o maior sossego, deixando tudo assim tão úmido. E bonito. E ah, eu me lembro, como eu me lembro dos seus traços tão fortes, e ao mesmo tempo tão suaves, da sua beleza tão singela... é, singela. Aquela beleza que nasce de dentro, sabe? E não vai embora. Aquela beleza que cresce junto com a gente, no mais profundo dos olhos. Ah, como você era bonito! Queria ter te escrito antes, ter te encontrado antes, te falado todas as mil coisas bonitas que brotavam de mim quando a gente se tocava. A gente tinha uma espécie de ritual maluco, lembra? Nossos corpos tinham total sintonia, sincronia, e parecia que a gente deslizava pelo mundo. E como as pessoas tinham inveja de tudo aquilo, daquela felicidade que faz doer os ossos. Te lembro tanto, que chego a quase esquecer. Queria ter racionalizado tudo isso antes, mas acho que quando a gente entra nesse estado de letargia fica difícil compreender o rumo das coisas, você entende? Eu não imaginava que tudo aquilo iria se tornar isso. Que a neblina tão bonita me ia congelar a carne. Mas eu me perdôo: é preciso sempre respeitar o tempo das coisas... eu só queria, só queria mesmo era ter tido coragem para te escrever antes...

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