sábado, 30 de março de 2013


Miséria explícita: sôfregos perambulamos por vielas que não se encerram: encerando capelas e abismos com as mesmas mãos. E os mesmos propósitos. É falso, ou até ingênuo se acreditar? Se creditar, talvez, a ponto de quase? Ebulição constante, na linha trêmula de todas essas incongruências. Ser urgência. E com urgência! De todos esses espaços que não se findam em si. Volátil, até ignóbil re-compreensão: quando foi que ver virou sinônimo de olhar? Te preciso como quem já mergulhou. Piscina ou mar, não sei.


Olhou, num ato hemorrágico, para o espelho: já não havia mais espaço: principalmente em mim. (é nesse apelo obtuso que se tangenciam as emoções) Rezou por dez vezes até esquecer as paisagens íngremes por onde corriam as veias: é preciso sempre deixar-se sangrar – constatou antes de partir.


Existe no canto esquerdo da boca uma quase sofreguidão: me posto a coçar, a fim de aliviar esse incômodo. Mas ele só faz aumentar. Com movimentos cada vez mais agressivos arranho o espaço todo que já pertence às bochechas, chegando perto dos olhos. É uma vontade de falar: vontade de vomitar de vez meses de pensamentos que não se findam. Quero jorrar as letras todas para fora, cuspir na primeira coisa que passar por ali naquele instante. Arrebento a pele que une os lábios, enfio mãos e dedos dentro do espaço dos dentes, puxo a pele, tento fazer com que as palavras saiam. Desfiguro-me e não me desentalo. O desespero é tamanho que me ponho a balançar as mãos ensanguentadas de mim no ar: é aí que vejo, é aí que compreendo: minha fala é manual. Minha voz carece na ponta dos dedos, nas veias da palma da mão. Escrevo como quem fala, porque minha escrita é fala: a fala-voz não cabe dentro de mim. É como se as palavras todas pulassem direto da garganta para as mãos. E aí me desarticulo: minha vida toda não existiu senão nos riscos e signos que abdiquei por ai. Sou viva somente enquanto escrita, personagem também desta ficção. Me crio somente no momento em que escrevo. Mas escrever me é uma porta gangrenada.


 - Acordei hoje e algo havia rebentado.



o certo nem sempre é o mais certo: ao tentar fundir tantos passados nesse presente lancinante flagrei-me em meio a engasgos e folhas secas. O tempo já anuncia: o outono vem trazendo mais dias cortantes que dilaceram. Dilaceram fazendo sorrir. Sempre foi certo demais pra dar certo. Trouxe as mãos, os olhos e a vontade, mas viu sem enxergar que eram eles, só eles: os girassóis.

terça-feira, 26 de março de 2013

Carta aos sentimentos: re-flexões sobre o sentir.


Te escrevo pra lembrar do carinho: não é desejo esparso nem vontade louca, é brotinho de algo que se foi: surgiu no seu próprio espaçotempo, do meu eu de ontem pra sua pessoa que já não é. Mas não se finda assim... perdura pelo tempo todo da existência e se faz sentir presente porque de fato o é. Não permite remorso nem náusea nenhuma, não deixa lacunas e nem problemas. É grande, mas não cabe, entende? Não cabe no hoje, no agora, mas cabe em todos os momentos, porque ainda tem o gosto daquele doce que a gente nunca mais consegue fazer. Não cabe porque é passado passado a limpo, e não mais viola. É pra sempre e nunca mais, viaja no tempo, mas sem nunca sair do seu lugar cativo. É carinho, mas não carece; é ternura, mas não esquenta: é pra sempre já acontecido. Não volta porque não precisa: não é mais misto de urgência interna com desabrochar petulante:  é sentir não mais sentido.