Respiro pausadamente. Sinto uma vontade tímida e espalhafatosa perto do estômago. Pequenas pontadas, pequenas agulhadas que vão ferindo lentamente a carne. Desconforto. Formigamento. Um desassossego que não nomeio, não decodifico: sinto apenas. E ele cresce, e aumenta, e agora queima. Me faço em versos de carne viva: arranco a pele afim de exaurir-me da dor. E nada cessa. Me atiro para fora de mim-mesma: órgãos, vísceras, essência. E nada cessa. Me viro do avesso, me transponho para o outro lado, mas tudo o que ainda sou acaba por crepitar: incêndio sinuoso. E nada cessa. A sensação me sobe pela garganta e desemboca nas cordas vocais: é um grito extenso, longo, longínquo: o grito daqueles que se quebram como cacos-de-vidro. E ele dança dentro da minha boca, faz malabarismos, brinca como criança. Mas eu o engulo forçosamente, o empurro de volta ao profundo do corpo. Tento fazer sufocar o grito que me emudece. Mas ele não cessa. Ele dilata e ocupa todos os mínimos espaços dos dedos, e quebra as unhas, e rasga a pele, e se torna extensão de mim-mesma. Cria feridas, machuca, jorra sangue. O grito não cessa: cedo: solto, relaxo, viro mar. E grito:
segunda-feira, 30 de maio de 2011
sexta-feira, 27 de maio de 2011
dezesseis de agosto
Esse amor-gozo que explode de dentro de mim,
Jorrando todos esses olhares, todos esses braços e pernas e desejos.
Esse amor-estupro que viola minha pele,
Que rasga minha boca, que me arrebenta sem permissão.
Esse amor-gemido que entontece: vibra: freme
Pulula por todos os meus poros
- Te acarinho e te machuco: te quero
domingo, 15 de maio de 2011
Sou ser pulsante: pensante: erro. Fadado sempre ao sempre. Penso que um amor tão puro como este que vibra forte no peito não haveria de doer tanto. São tantos tantos. Desliza, derrapa e acaba por fixar-se no meu imaterial tão congelado no tempo. Chega de impulsos subjetivos. Sou ser errante: avanço no meu tempo diretamente para o seu espaço. Não recorro mais aos seus olhares: findo por mim mesmo o aqui e agora, numa sincronia perfeita com todas as mentiras que saem pela ponta dos dedos. Verdades que se entregam testa por testa. Quase-verdades que se esticam. Quase-mentiras-verdades que somem junto com meus dias sempre iguais. Sempre à espreita de alguma doença, alguma paixão. Sou ser navegante. Sou ser flutuante. Sou ser: vou ver: fui.
segunda-feira, 9 de maio de 2011
Vamos quebrar as paredes lapidadas de tantos brutos amores; irromper das raízes o caule, o caldo de todos esses meses. Frágeis sombras que deslizam pelos olhos:
Sou.
Vou sendo.
Indo.
Acabo por me dilatar. Vamos arrancar do peito essa náusea cansada. Vamos colocar, calcular as medidas mais diversas dessa doçura em forma de sentimento: sempre tão amargo. Vamos arrematar das testas todas as tolas mentiras. Vamos. Vamos. Vamos?
Sou-me.
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